sábado, agosto 8

Bons tempos aqueles das pretinhas, das laudas, do telex

Trecho da entrevista da Maria Adelaide Amaral no livro Com Certeza: Leda Nagle, melhores momentos Leda Nagle: Puxando a brasa para a nossa sardinha, o meio jornalístico facilitava as grandes amizades. Maria Adelaide: Estamos falando das redações do tempo da máquina de escrever. Quando voltei na Editora Abril a sensação que tive foi a de que estava entrando no Banco Central. Pensei: “Cadê aquela alegria?” Todo mundo hoje parece executivo. Eu não quero mais trabalhar nessa redação, mas eu queria muito voltar a trabalhar “naquela” redação. O vento levou. O tempo levou. É outra coisa. Eu fico perplexa porque estou sendo entrevistada por esses jovens jornalistas e eles ficam atônitos. Primeiro porque eles acham muito estranho que em algum momento houve uma redação como aquelas nas quais a gente trabalhava. E depois, eles ficam muito perplexos que nós continuemos amigos. E mais, que a gente tivesse sido realmente solidária: todo mundo sabia o salário dos outros. Quando a gente recebia um aumento contava para o colega e ainda dizia: “vai lá também pedir o seu”. Era outro espírito. As pessoas eram mais solidárias. A gente estava vivendo na verdade os estertores do movimento hippie, que nos afetou favoravelmente. O que era chique, bom e recomendável era ser solidário. ++++ Sem saudosismo (no sentido das novas tecnologias). Hj não dá para pensar em escrever um texto que não seja no computador e todas as facilidades que ele oferece. Mas, talvez por estar fora de uma grande redação (no sentido numérico, inclusive) desde 94 e, a partir de 2003, ter passado a escrever de casa e mandar o trabalho via e-mail, não tenho + histórias boas, hilariantes ou ruins para contar. Mas o toque que a Maria Adelaide dá “o que era chique, bom e recomendável era ser solidário”, sinceramente, eu gostaria muito que ainda prevalecesse. Tem tanto gente boa (como pessoa, não apenas profissional) nas redações, que elas merecem viver esses momentos. +++++ A Tribuna era tão divertida que certa vez, alguém fez uma matéria meio resposta a de um repórter que, à época, era o estrelo da cia. de um grande jornal carioca, com sobrenome leguminoso e quis usar pseudônimo. A editora, Isa Freasa, mandou essa: “assina Maria com o mesmo sobrenome do estrelo, mas em francês”. +++++ Como comecei a cobrir carnaval no Fluminense, no tempo em que Viradouro e Cubango desfilavam apenas na Amaral Peixoto (ainda não tinha havido essa migração para o Rio), e depois no Rio, em jornais e revistas, quando fui para Sampa, quis ficar fora da folia, como profissional. No Globo fui bem compreendido. Mas me ferrei. Optei por trabalhar na Semana Santa e, claro, fui deslocado do 2º Caderno para a Nacional, e ralei feito um condenado. Qdo descobri que o repórter escrevia apenas uma lauda (35 linhas de 72 batidas, se não engano) sobre o carnaval paulistano e que o jornal dava só uma notinha, no ano seguinte quis ir para o sambódromo (que ainda não era no Anhembi). Anos depois, já no Diário Popular, na reunião para decidir a cobertura, argumentei que queria me aposentar da avenida. Na época, seria minha 13ª cobertura. Me fu, de verde-e-amarelo. A chefa me botou na redação, fazendo trabalho burocrático: entregava a diária e a camiseta para todas as equipes que iam cobrir o ziriguidum. E ainda tive de escutar do diretor da redação, quando passava (lá pela madruga mesmo) em frente à TV “que porra é essa?”. O que “porra é essa”, nada mais era que um grupo de coreanos fazendo uma coreografia típica dentro de uma ala de uma escola paulistana. Respondi: “Que porra é essa? Culpa sua que inventou a história de criar, como no Rio de Janeiro (ele era carioca), um caderno de carnaval”. A partir dessa experiência traumática, optei por, nos anos seguintes assistir “a porra” ao vivo. E mais: cobria uns bloquinhos (que todos somados não davam um Cacique de Ramos) na sexta-feira. Repórter só eu. Os fotógrafos se revezavam. Mas valia a pena. Depois de bater a matéria, elogiando aquelas “porras” voava para o Rio. Assistia aos desfiles de domingo e segunda e desfilava na minha Mocidade – na época guerreira e vencedora. Na terça, ia direto da Marquês de Sapucaí para o aeroporto, porque voltava ao batente cobrindo uma paradinha que até achava legal no carnaval paulistano: o desfile das escolas principais, só que na ordem invertida e sem valer pontos.

Um comentário:

  1. Q tal a sugestão: peça a amigos seus para contar histórias de redações e publique no s/blog. é um assunto bem legal. Cobra

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