quarta-feira, novembro 11

Relembrando Helber Rangel pelo mês de novembro

É Tarde Para Saber Por Lilian Newlands Numa noite qualquer dos anos 70 ele chegou em casa visivelmente eufórico. O motivo cabia nas mãos, um exemplar de É Tarde Para Saber, de Josué Guimarães, escritor gaúcho considerado um dos melhores do país, morto em 1986. “Isso tem que dar um filme e eu quero o papel do Cássio. A gente tem que batalhar o roteiro”! A coisa durou alguns anos e ele não variava o tema e o tom: “A gente só consegue as coisas quando tem obsessão. Sem obsessão tudo se perde”! Li o livro em uma noite, mas a leitura não causou em mim o mesmo efeito arrebatador. A história me pareceu ingênua, embora bem escrita e envolvente. Como se apenas molhasse a ponta dos dedos no poço fundo com aquelas águas escuras dos anos 70. O projeto foi adiado e, pouco a pouco, esquecido. A obsessão arrefeceu. Não se falou mais em Cássio, o guerrilheiro sensível, e Mariana, a moça rica descrita como bela, doce e sensual. Algumas coisas na vida se perdem quando não realizadas de imediato. Foi assim com aquele projeto. Vieram outros. A filmadora e o projetor super-8 sonoros, último lançamento, comprados na Mesbla a prestação e que filmou alguns espetáculos do teatro Opinião, depois da orientação técnica de Dib Luft; o trabalho na produtora Zoom, de Ney Sroulevich; o programa Coisas Nossas, de curtas nacionais, onde eu escrevia o texto que ele apresentava, reclamando do meu excesso “de proparoxítonas”. Era dirigido por Luis Sarmento e, ás vezes, editado na casa de ZelitoVianna, que tinha em casa talvez a única moviola do Rio. Dois curtas também fizeram parte desse currículo – Cantilena do Arlequim e Qualquer Semelhança é Mera Coincidência, dirigidos e produzidos por Daisy Newlands . O segundo teve problemas com a censura de então, entregue ás mãos da dona Solange, com que Daisy teve alguns entreveros – até ser liberado. Qualquer Semelhança reproduzia a prisão acidental por que passamos naqueles anos. Uma confusão fez com que fôssemos arrancados do carro e intimados a comparecer no dia seguinte a uma delegacia de Pilares. Nessa véspera o medo parecia esmagador. À noite, no entanto, duas pessoas, correndo os riscos da época, marcaram presença com uma solidariedade assustada e corajosa – os jornalistas Luiz Eduardo Rezende e Virgínia Cavalcanti. Acho que, naqueles anos 70, manter alguns amigos pressupunha arte, coragem e tutano. Foi disso tudo que me lembrei e relembrei ao encontrar, sem querer, fotos antigas, daquelas que a gente não explica como os negativos puderam resistir tanto. Os rostos sérios e as imagens em preto e branco me disseram mais do que aquelas em cores e de riso escancarado. Muitos anos depois, já um ator consagrado, abandonou a carreira – como já havia abandonado o Direito, o jornalismo e o oboé. Era inquieto. Demorou, mas acabou indo ao encontro da terra prometida, quando comprou uma fazenda na Volta de Peão, vilarejo na estrada antiga de Teresópolis, contíguo a outros com nomes como Sumidouro, Salinas, Pecegueiro. Ali desenvolveu outra cultura, após estudar técnicas agrícolas. Muita gente estranhou, mas ali ele foi feliz. Como já tinha sido feliz na adolescência, num sítio do pai, em Guaratiba, com um muro erguido por ele mesmo. Falava muito dessa época e apontava para a casa: “ É aquela ali”. De qualquer forma vai permanecer o menino ensaguentado que tombou nos braços de Jeanne Moreau, em Joana Francesa (Cacá Diegues); o poeta Zeca, descrito como “adorável felliniano com seus versos em decassílabos”, em Perdida, obra-prima do amigo Carlos Alberto Prates ; o rapaz no bonde, no requintado e sensível Os Condenados (Zelito Vianna), e dezenas de outros personagens numa carreira que fechou seu ciclo com Quincas Borba (Roberto Santos), e que foi iniciada no curta Agressão, de José Haroldo Pereira. Costumava dizer que o cinema eterniza as pessoas. Isso foi nos anos 90, quando a força quase mediúnica da Internet ainda não revelara por inteiro seu pacto diabólico com o sobrenatural. Hoje, ela imortaliza todo mundo que caiba num filmete. As respostas que ele extraiu da terra revolvida e arada ele as guardou para si, embora já tenha sido comprovado que ela, a terra, sempre foi um agente da felicidade. E é certo que suar e usar as mãos fez parte de um sonho que o acompanhou ao longo da vida. Quanto á fartura da colheita, as sinfonias de Beethoven, os amigos espalhados, o sorriso do lagarto e o silencio da mata, agora é tarde para saber.